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Filmes sobre pintores: Caravaggio





É raro ver filmes sobre artistas que sigam a estética e os temas da arte realizada por ele. O mais interessante caso seria tratar da vida de um pintor usando imagens aproximadas de suas telas. Um filme sobre Van Gogh que usasse os tons expressionistas e modelasse a imagem de acordo com as pinceladas grossas do artista (isso é fácil para a tecnologia do cinema) me parece bem mais interessante do que simplesmente um filme sobre o indivíduo Van Gogh, como se fosse uma biografia. (Biografia, em literatura, não é arte, embora Virginia Woolf tenha aproximado os dois em Orlando, e, assim, problematizado a questão.)

Um filme que se aproxima desse ideal de usar a estética do artista em uma obra sobre ele é Caravaggio, de Derek Jarman. O filme não só reproduz as imagens barrocas dos quadros de Caravaggio como usa o jogo de luz e sombra, e as antíteses do artista, para compor as cenas. A própria trama do filme é um equilíbrio entre o belo e o feio, o rico e o pobre, o gênio e o louco, o religioso e o profano, preservando os temas de cunho barroco.

As figuras conhecidas dos oitenta e poucos quadros de Caravaggio também aparecem, não só nas montagens que servem como modelo para o artista quando ele vai pintar, mas na própria diegese do filme. O Baco doente aparece no rosto do próprio Caravaggio, esverdeado como o rosto do deus grego.






















A figura do anjo, tão comum em seus quadros, aparece figurando no próprio filme.





Nesses clipes é possível perceber como o filme imita os quadros de Caravaggio, não só ao recriá-los com atores, mas também nas cenas em que não há modelos posando para serem pintados.

É uma pena que só se faça filmes sobre pintores - Van Gogh, Picasso, Modigliani, Frida Calo, Basquiat, Pollock (cito somente os que me vêm à cabeça agora) - sem usar o estilo do artista para compor as cenas e os enquadramentos.

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Filmes:
Caravaggio. (dir: Derek Jarman)
(vídeos hospedados no youtube)

Imagens:
Il Bacchino ammalato, 1594. (Caravaggio)

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Caravaggio na wikipedia: em inglês; em português.
Caravaggio (filme) no imdb: em inglês.
Derek Jarman no imdb: em inglês.
Alguns filmes sobre pintores no imdb:
Van Gogh; Picasso; Modigliani; Frida Calo; Basquiat; Pollock.
(Há vários outros, sobre esses e outros pintores, coloquei aqui somente os que lembrei, e os mais novos, quando já se tornou possível fazer todo tipo de efeito pictórico nas imagens em movimento.)

McLuhan + Magritte





No livro "Os meios de comunicação como extensões do homem", McLuhan discute o conceito de auto-amputação. Segundo o autor, a auto-amputação ocorre quando o homem prolonga-se ou projeta-se para fora de si mesmo. Um exemplo disso, segundo McLuhan, seria o uso da roda como extensão do pé, cuja função é "amputada" e "amplificada". A tecnologia é, então, uma extensão (ou "amputação") do nosso corpo.

O quadro "La modèle rouge" (conheço duas versões, uma de 1934 e outra de 1935), de René Magritte, ilustra bem esse conceito.



















(1)


Os pés descalços (ou descalçados), no quadro, aparecem como metade pé e metade bota, como se os pés, amputados, fossem substituídos pelas botas (bota também é tecnologia, todo mundo sabe). Os objetos tecnológicos, que, em McLuhan, são metáforas do homem ("as máquinas são metáforas do homem") aparecem no quadro como botas que são metáforas dos pés (em uma figura só), e, por metonímia, também do homem.

(Eisenstein provavelmente mostraria pés e botas em close, em cortes rápidos e intercalados - pés/botas/pés/botas -, para sugerir a metáfora)

Outra relação bastante óbvia de McLuhan com a pintura é feita indiretamente, através do mito de Narciso. É a partir do mito de Narciso que McLuhan desenvolve o conceito de auto-amputação. Narciso usa o espelho como uma extensão de si mesmo, e, como Narciso, os homens se tornam fascinados por qualquer extensão de si mesmos, mergulhando num estado de entorpecimento. Narciso já foi retratado várias vezes na pintura, duas delas ficam registradas abaixo.












(2)




















(3)


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referências:
MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. Tradução de Décio Pignatari. 4ed. São Paulo: Cultrix, 1974.

imagens:
(1) La modèle rouge, 1934. (Magritte)
(2) Metamorfose de Narciso, 1937. (Dalí)
(3) Narciso, 1599. (Caravaggio)

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McLuhan na wikipedia: em inglês; em português.
Magritte na wikipedia: em inglês; em português.
Dalí na wikipedia: em inglês; em português.
Caravaggio na wikipedia: em inglês; em português.
Eisenstein na wikipedia: em inglês; em português.
Eisenstein no imdb: em inglês.

O título





Para que ninguém diga que eu roubei o título de Décio Pignatari, recorro a ele mesmo para explicar de onde vem a palavra "debarte".

Diz ele, em "O que é comunicação poética":

"Vamos imaginar que você quisesse batizar uma revista ou um programa de televisão que tratasse de assuntos de arte - e criasse o título "Debarte". Numa palavra só, você estaria dizendo que se trata de um programa ou revista destinados a debater assuntos de arte." (pp. 55-56)

Não é lá o melhor dos títulos, e isso não é uma revista ou programa de televisão, mas funciona da mesma forma.

Escrevi isso lembrando do Eros de Caravaggio. Um exemplo perfeito de arte barroca, algo muito anterior ao pensamento dos poetas concretos brasileiros, e também grande arte. Não sei qual é a relação. Talvez debater arte seja antitético, um anjo de asas negras, um jovem em pose sensual, um rosto angelical com um sorriso malicioso, a luz e a sombra. Debater arte deve ser essa tentativa de acabar com o opaco, o escuro. A análise pode ser a luz, e a obra a sombra.























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Referências:
PIGNATARI, Décio (2005). O que é comunicação poética. 9ed. Cotia-SP: Ateliê Editorial.

Imagens:
Amore vincitore, 1603. (Caravaggio)