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"Montage" - III




Já falei aqui sobre dois tipos de "montage" (montage I - montage II). Ambos resumem um período de tempo para que a narrativa avance, mas com a diferença de que enquanto um resume dias, semanas ou meses, outro resume apenas minutos ou horas.
Há um tipo de "montage" que difere desses radicalmente, em termos de tempo. Em vez de usar o presente diegético para avançar a narrativa, esse terceiro tipo de "montage" usa o passado para causar certo efeito no espectador, dependendo do gênero do filme.
Embora as características sejam as mesmas (pedaços de cenas em cortes moderadamente rápidos, ausência quase total de sons diegéticos, música tocada por inteiro - ou quase por inteiro, com fade), esse tipo de "montage", que resume o passado, tem objetivo completamente diferente.
Nesse caso, o objetivo vai depender do gênero do filme. Esse tipo ocorre mais comumente no drama, em que momentos do passado são revividos na tela para emocionar o espectador.
Um bom exemplo disso é a "montage" em Basquiat, quando ele recebe a notícia da morte de Andy Warhol.



Pensando sobre esse tipo de montagem que retoma o passado para emocionar, podemos pensar em outro tipo, que tem também o objetivo de causar uma emoção no espectador, mas não retoma o passado, e sim avança a narrativa. Seria uma combinação das duas coisas: ao mesmo tempo em que avança a narrativa, a "montage" serve para emocionar o espectador. Esse tipo de "montage" é, ao contrário dos outros, bastante interessante, pois une duas coisas em uma só, dois objetivos em um só recurso, e pode ser visto em grandes filmes, como em A noite americana.





Pensando sobre esse último tipo, um tipo misto, podemos imaginar que ainda há solução para recursos fracos, que é possível transformar certos clichês técnicos em novidade cinematográfica, e tornar a obra melhor artisticamente.

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filmes (links no adorocinema e no imdb):
Basquiat, traços de uma vida (Basquiat) - dir: Julian Schnabel
A noite americana (La nuit américaine) - dir: François Truffaut

Filmes sobre pintores: Basquiat




Já falei aqui sobre como a maioria dos filmes biográficos sobre pintores não se aproveitam da estética do próprio artista na montagem dos cenários, ou nos efeitos especiais, para conseguir uma imagem mais aproximada da arte do sujeito em questão.
Basquiat (1996, de Julian Schnabel) é um desses filmes, mas que tenta, em certos momentos, penetrar na mente de Jean-Michel Basquiat, e o resultado é algo parecido com sua arte. Há uma cena, que se repete com pequenas mudanças ao longo do filme, que parece mimetizar um pouco da arte de Basquiat, mas mais da arte pop da época do que do artista individualmente.




Além dessa cena, há outras, como o início, que mostra Basquiat criança com uma coroa dourada. A coroa é um elemento que aparece em vários quadros de Basquiat.



(1)

(2)

(3)
(Note a presença da coroa nos três quadros acima)

O filme se mostra, no entanto, muito mais acadêmico e biográfico (de uma forma tradicional) do que deveria ser um filme sobre Basquiat: um artista completamente fora dos padrões artísticos tradicionais. Como ponto forte, o filme não se apega ao problema das drogas ou aos relacionamentos com famosos (como o namoro dele com Madonna), mas prefere caminhar em uma narrativa um tanto subjetiva, dando saltos motivados pela vida artística de Basquiat, e não procurando o modelo fácil que daria mais publicidade para o filme. Claro que as drogas têm seu papel no filme, e também alguns relacionamentos com pessoas famosas, como Andy Warhol, mas eles entram como parte do sujeito, do artista, e não como motivo de drama e sensacionalismo.

O estudo do sujeito se une, no entanto, com o estudo da arte de Basquiat, na cena final, em que uma pequena fábula é contada por ele. A fábula, belíssima, metaforiza a vida de Basquiat, e usa elementos da arte dele para isso, como a coroa no príncipe e as pessoas com rostos quase grotescos. No entanto, essa cena, bem como o resto do filme, poderia se aproveitar melhor da estética de Basquiat, de sua arte marginal, primitiva.




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Filmes (links no imdb):
Basquiat (dir: Julian Schnabel)
(vídeos hospedados no youtube)

Imagens (links na wikipedia, em inglês, português e francês):
(1) sem título, 1982. (Basquiat) (eng)
(2) King Alphonso, 1983. (Basquiat) (port)
(3) Mr. Greedy, 1986. (Basquiat) (fra)