Descrição em "Os Contos de Canterbury"




Os Contos de Canterbury (1971), filme do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, adaptado da obra de Geoffrey Chaucer, é a segunda obra da chamada “trilogia da vida”; iniciada por O Decameron (1970) e completada por As mil e uma noites (1974). Embora a “trilogia da vida”, para Pasolini, seja uma exaltação da vida humana carnal, física, Os Contos de Canterbury nos mostram a morte como um perseguidor dessa vida: Thanatos diretamente ligado a Eros.
Os Contos de Canterbury, de Chaucer, foi escrito no século XIV, em forma de poema. Além dos contos utilizados por Pasolini no filme, há vários outros, além de muitos fragmentos, anotações e contos deixados incompletos por Chaucer.
Mas o que nos interessa aqui é a descrição.
Alguns autores afirmam que não existe descrição no cinema, outros dizem que é o contrário, que na verdade sempre há descrição no cinema, mesmo que seja apenas descrição tácita. Acredito que existe sim descrição no cinema, e não só tácita, mas explícita.
Ninguém colocaria em dúvida a descritividade de um quadro, digamos, de Bosch ou Brueghel.

(I)

(II)

Em Canterbury, Pasolini nos mostra cenas extremamente descritivas. Uma breve comparação entre a última história do filme e os quadros aqui reproduzidos já é suficiente para provar a descritividade da cena. São cenas realmente muito semelhantes, a de Pasolini e as de Bosch e Brueghel, cheias de pessoas amontoadas umas nas outras, morros pedregosos, nudez, torturas sexuais, etc.

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O inferno, aqui, é descrição pura e explícita (não tácita), como também várias outras descrições em outros contos: no conto do mercador, na festa de casamento do rei; no prólogo da esposa de Bath, na procissão; ou no conto do pregador, quando aparece o tesouro (reassistir ao filme ajudaria a entender). Os passeios da câmera (embora às vezes se confunda com a visão do frade), junto aos planos que mostram "detalhes" daquele lugar, funcionam como uma descrição do inferno, uma descrição bem nítida e explícita.
Na verdade, o filme de Pasolini parece ser mais descritivo até do que a própria obra de Chaucer, que, sendo literatura, estaria mais apta à descrição (pelo menos esse seria o pensamento mais comum). A leitura da “cena” do inferno em Chaucer nos ajuda a entender isso.

“Vocês já ouviram várias vezes
sobre como um frade foi levado ao inferno
em espírito, tomado por uma visão;
e quando um anjo o levou lá para baixo
para mostrar-lhe as dores e tormentos que lá existiam,
em todo o lugar ele não viu sequer um frade.
E ele perguntou ao anjo:
'senhor, os frades são tão puros,
que nenhum deles vem para cá?'
'Não', disse o anjo, 'milhões são jogados aqui!'
E o levou ao Satanás.
'Satanás', disse ele, 'tem uma cauda maior
do que a vela de um navio.
Mostre seu cu e deixe o frade ver
onde é o ninho dos frades neste lugar!'
E assim como as abelhas saem da colméia,
saíram do cu do Diabo
vinte mil frades seguidos,
e por todo o inferno eles correram,
e depois voltaram, tão rápido quanto possível,
e no seu cu entraram novamente, todos eles.”

(arrisquei essa tradução rápida, mas reproduzo aqui o original para quem quiser conferir)

“For, pardie, ye have often time heard tell,
How that a friar ravish'd was to hell
In spirit ones by a visioun,
And, as an angel led him up and down,
To shew him all the paines that there were,
In all the place saw he not a frere;
Of other folk he saw enough in woe.
Unto the angel spake the friar tho;
'Now, Sir,' quoth he, 'have friars such a grace,
That none of them shall come into this place?'
'Yes' quoth the angel; 'many a millioun:'
And unto Satanas he led him down.
'And now hath Satanas,' said he, 'a tail
Broader than of a carrack is the sail.
Hold up thy tail, thou Satanas,' quoth he,
'Shew forth thine erse, and let the friar see
Where is the nest of friars in this place.'
And less than half a furlong way of space
Right so as bees swarmen out of a hive,
Out of the devil's erse there gan to drive
A twenty thousand friars on a rout.
And throughout hell they swarmed all about,
And came again, as fast as they may gon,
And in his erse they creeped every one.”
(página 203)

Do ponto de vista descritivo, há apenas o fato do frade não ver nenhum outro frade no inferno, e também a descrição do rabo do diabo e da enxurrada de frades saindo do ânus dele. Fica evidente que o poema de Chaucer utiliza pouquíssimas imagens, pouquíssima descrição, principalmente quando comparado com a cena aqui reproduzida do filme de Pasolini.
O poema se mostra, então, eufêmico, implícito, enquanto o filme se mostra disfêmico, explícito. Toda a nudez, a descritividade compulsiva e o acréscimo de cenas de sexo em relação ao texto original tornam o filme uma obra que se manifesta a favor da arte como Pasolini a entendia (pelo menos durante a feitura da “trilogia da vida”), desprovida de pudor, mostrando que o sexo é uma realidade humana, que deve ser mostrada em toda sua carnalidade.

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livro:
CHAUCER, Geoffrey. The Canterbury Tales. London: Everyman, 1998.

filme:
I Racconti di Canterbury, 1972. (dir: Pier Paolo Pasolini)

imagens:
(I) O jardim das delícias, 1505. (Bosch)
(II) O triunfo da morte, 1565. (Brueghel)

Wagner: Música e Imagem




Richard Wagner compôs a ópera O Anel dos Nibelungos (um conjunto de quatro óperas, na verdade) fazendo música apropriada para um épico de fantasia no estilo de O Senhor dos Anéis. Mesmo sendo feita com o intuito de acompanhar uma história de fantasia, a música de Wagner ultrapassa esse limite, podendo ser apreciada por si só, principalmente, mas também podendo ser utilizada em outras obras. Prova disso é o que já foi feito em dois filmes completamente diferentes um do outro.

Em Nosferatu: o fantasma da noite, de 1979, Werner Herzog faz uma refilmagem do clássico filme de Murnau, baseado no romance Drácula, de Bram Stoker. Em uma cena do início do filme, Jonathan se aproxima do castelo do Conde Drácula, e sua chegada é acompanhada pelo prelúdio de O Anel dos Nibelungos, de Wagner.

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Aqui, a música se torna sombria, carregada de mistério e de aventura pelo desconhecido. O clima é de suspense. Talvez o recorte aqui não seja o suficiente para evidenciar esse clima de mistério da cena, mas acompanhando o filme ele é nítido.

Já em O Novo Mundo, filme de 2005, de Terrence Malick, a mesma música é usada, mas com um tom completamente diferente, de forma que a emoção criada é quase oposta à do filme de Herzog. Numa cena das mais belas do Cinema, Pocahontas e o Capitão Smith se entrelaçam em momentos eternos e etéreos, que, acompanhados pela música de Wagner, tornam-se mágicos e transcendem a simples imagem e o som, tornando-se poesia pura, poesia não-intelectual, uma poesia da natureza, do sentimento, do sentir. Aliadas ao belo texto, as imagens e a música se completam.

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Esses dois usos distintos da música de Wagner nos coloca diante de um caso talvez especial: a música é usada tanto para acompanhar o sombrio, o nefasto, quanto o claro, o luminoso; tanto o suspense, o terror, quanto o amor, o belo. Wagner se revela um monstro de escuridão e rutilância.

É interessante perceber como, mesmo sendo bastante distintas, as duas cenas possuem traços em comum. A beleza da natureza é mostrada, nas montanhas e cavernas de Nosferatu e na floresta e no mar de O Novo Mundo. A presença da água também é notada nas duas cenas, o que nos remete à própria ópera de Wagner, cujo prelúdio acontece no rio Reno. Além disso, o final da cena é praticamente o mesmo, em suas estruturas profundas: a personagem chega a um lugar fechado, a uma porta, em um "castelo".

A grande música tem essa capacidade: funcionar de forma bela por si só, mas também transformar e ser transformada, quando aliada à imagem.


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filmes:
Nosferatu: o fantasma da noite, 1979. (dir: Werner Herzog)
O Novo Mundo, 2005. (dir: Terrence Malick)

música (download):
Das Rheingold (prelude). (de Richard Wagner)